Revisitar (parte II)

Pequena história imaginária

Não tardou muito, após este pensamento me despertar, tomar ação. Comecei a dar luz, afastei e recolhi as grandes cortinas feitas em pano grosso bordô e adornadas com motivos decorativos de folhas que se entrelaçam dourados. O sol fez questão de entrar e, todo o espaço em madeira escura, reluziu novamente, expondo todos os detalhes em relevo cravados na madeira e as cores que pulsavam na vida de todos os objetos que compunham o espaço. Cada objecto e composição traziam à vida memórias.

Parei um pouco em frente à grande janela, a observar a vista do espaço envolvente lá fora. Sempre que olhava por esta janela lembrava-me um quadro de Monet, enorme. A mistura das tonalidades dos objetos não me parecia algo estático e físico, mas sim uma impressão de manchas sem grandes contornos, o olhar é que conseguia distinguir as formas, conseguida através da luminosidade. Diferentes, a qualquer altura do ano, a luz que transparecia na natureza eram sempre únicas. A paisagem, maioritariamente composta por árvores e arbustos a perder de vista e, um pequeno lago, habitado por patos em determinada altura do ano. 

Muitas histórias contavam aquelas árvores, a inspiração que me proporcionou e os seus estados no decorrer das estações fizeram sempre que encarasse a vida como uma projeção desse ciclo eterno, como se dentro da minha imaginação a captura da impressão me compusesse. O pensamento sobre o efêmero e a continuidade devia-se à observância diária da vida pulsante lá fora.

As noites traziam grandes deslumbres, pois, sem luzes conseguia-se ver até a mais pequena estrela a iluminar o céu, a minha imaginação deixava-se levar. Observar o céu através da grande janela transportava-me lá para fora, pela continuidade do espaço a voar. Outras vezes, imaginava sair a passos silenciosos, dançando ao som da doce Clair de Lune, excerto da suite bergamasque de Claude Debussy, que tocava na minha cabeça e me convidava a seguir em direção à escuridão pontilhada de estrelas daquele manto a perder de vista. As estrelas dançavam e eu, perdida no universo, conseguia imaginar, quase que a tocar, na noite estrelada de Van Gogh. Esvoaçava e imaginava. Aquela janela, a janela da imaginação.


Excerto de texto do livro que me encontro a escrever. Quando iniciei este blogue, sempre tive a sensação que não sabia escrever, descrever, passar a palavras as ideias que iam na minha cabeça. Ainda hoje questiono, mas vou tentar, seguir em frente e arriscar, mesmo que o faça mal. Com a consciência de não ser uma escritora fantástica vou-me arriscar. Tentarei escrever para pensar e imaginar, sem uma linguagem muito erudita para poder chegar a todos.

Não partilharei tudo o que escrevo no livro mas partes, de vez em quando, intercaladas com as minhas criações artísticas plásticas e pequenos contos e pensares.

Fotografia Kevin Li no Unsplash não corresponde à janela descrita no texto.

5 thoughts on “Revisitar (parte II)

  1. Escrita tão leve e com profundidade, escreves muito bem. E suas janelas são ótimas para ver o mundo, a arte, a natureza das coisas. beijinhos Irina!!!!!!!!!!

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