Saudade

Sinto saudades, sim, refiro esta palavra tão tipicamente portuguesa que carrega um significado que só nós sabemos, profundo, pesado e com a nostalgia de um afecto que esteve presente mas não está mais. Talvez esteja a ser demasiado breve na sua definição, mas este sentimento melancólico não tem como ser explicado. 

Saudade, ela por vezes toma conta de nós.

Normalmente associada a algo passado, de lugares, épocas e pessoas a saudade hoje toma conta de mim. Vejamos, não é que não queria seguir em frente e pensar no presente, muito antes pelo contrário é, algo diferente.

Lembro-me de pessoas que estavam presentes e já não estão, momentos vividos com elas ficaram gravados na minha memória, como uma belíssima história que marcou o seu lugar.

Lembro-me de locais visitados, alguns muito cobiçados, que através de muita luta e privações consegui alcançar, e que maravilhosas memórias fotográficas e aprendizados que tive. Abriram portas distantes, não foram instantes marcaram a minha forma de perceber e pensar. 

Lembro-me de palavras faladas, comunicadas, de certa forma pensadas para haver estruturação. E ainda se lembram das cartas? Aquele envelope que nos deixavam no correio, na altura o único meio de contacto com proximidade. A surpresa da carta, de seu conteúdo, de tentativa de decifrar a letra, o cunho timbrado da pessoa. Não que agora a comunicação não seja mais fácil, mas o envelope, para mim representava uma prenda misteriosa no seu conteúdo. Ainda hoje conservo inúmeras cartas. 

Lembro-me de modificações, passar por desafios e alterações, como era antes. Terei saudades de como era antes? Aqui ponho-me a pensar…

Há saudades.

Teria feito as coisas de forma diferente? Provavelmente. Com a mentalidade que tenho agora e não possuía na altura tinha evitado alguma aventura, marcas e traumas marcaram o lugar, deixei-me ficar. Seguir ao sabor da corrente não bater o pé ou pensar coerentemente apenas levei pela emoção. Ah coração, que sempre tentaste me ditar a vida.

Agora vivo com ponderação, penso na ação, faço questão de usar a expressão. Sempre.

E lembro-me que sempre gostei de escrever, não expunha e conservava em cadernos, o seu conteúdo e pensamentos, alguns tormentos que passava, mas em tinta derramava para atestar minha história de vida do meu ser. 

Saudade, aquele sentimento tão nosso, que por vezes se apodera de nós. Mesmo que sigamos em frente será algo que temos sempre na mente, em qualquer lugar.

E vocês, do que sentem saudades?

Imagem Benjamin Davies no Unsplash

27 Comments

  1. Henri N. Levinspuhl says:

    Saudades do Brasil da minha infância, de que os mais novos, enganados por historiadores engajados, não fazem ideia de como era incomparavelmente mais seguro, mais próspero, mais ordeiro e livre das instigações políticas que nos devastaram.

    1. É complicado Henri.
      Muitos historiadores, conforme leio um pouco por aqui e por ali não conseguem dissociar as suas ideologias da narrativa histórica dos acontecimentos, serem factuais ou entenderem muita da história que leva a determinado ponto – existem sempre, um sem numero de diversidades que temos que tomar em conta. Vejo que muitos, não relatam história mas sim tentam tomar parte ativa dela. Não sei se isso será muito bem o papel de um historiador.
      A minha vertente é mais história da arte, confesso que estudei muito história e cultura mas não com a profundidade de um historiador – politico, económico, etc…
      Sempre tentei manter uma visão ampla e aprofundada para determinados períodos históricos em que o sentimento era mais presente numa parte da sociedade (artistas e escritores que marcaram a arte e sentimentalidade de outras formas, muitas vezes, não sendo consensual). Sempre tentei ser um pouco neutra na forma de ver determinadas questões (vá exceto o meu desabafo politico no outro post, digamos que aí a parte emotiva despertou a parte artística em mim, mas salvaguardei que era a minha estrita e humilde opinião). 🙂
      Um abraço forte, e uma boa semana.

      1. Henri N. Levinspuhl says:

        Obrigado. Creia-me, não gosto de ser pessimista, e tenho lá minhas esperanças. Mas sou testemunha do que vou dizer. Escolas no Brasil hoje formam militância jovem. Isso se realiza através do estímulo constante das agendas sociais, que dão a alunos as metas da luta. Eu vejo jovens assim chegarem às universidades com nível primário. Ser “professor de filosofia” é um ganha-pão. A indisciplina é tanta que não consigo ensinar. Diante do caos que enfrento em sala, quando um “aluno” se dirige a mim como “professor”, eu lhe digo educadamente: “Por favor, meu nome é Henri. Professor é alguém de quem você quer aprender”. Os livros didáticos estão “politizados”. Nos capítulos sobre estética, aplicam os princípios da dialética hegeliana da história, em que ideias progridem através de confrontos e sínteses. Escolhem teses e antíteses de modo a obter a resultante que querem, e concluem que a tendência atual da arte é a luta contra a “massificação criada pelo capital”. Assim sugerem engajamento a talentos artísticos porventura em sala. Eu sou ao menos positivo com minha existência de autor; dela eu espero mesmo uma boa semana. Para você também, Irina.

      2. Compreendo perfeitamente ao que se refere. Imagino que não se esteja a passar por um período na educação muito fácil. No meu tempo, já se notava um pouco isso, imagino que agora as coisas tenham piorado um pouco. Claro está, que cada caso é um caso, e não posso falar de o que se passa no seu país, compreendo que possam ser situações diferentes.
        Na altura que tive a disciplina de filosofia, confesso, que não estava preparada para a aprender, hoje, compreendo que é necessária e fundamental na nossa vida mas na altura, foi muito difícil para mim. O pouco conhecimento que obtive foi por curiosidade e busca por conhecimento nesta área, leitura de alguns textos e tentativa de aprendizagem de ver várias perspetivas.
        Mas posso-lhe dizer que durante o curso, passei por muitas referencias de filósofos, que só os aprofundei um pouco mais tarde. E confesso, no campo da filosofia, nada sei mas admiro e procuro saber.
        Um abraço Henri.

  2. Edsilva says:

    Adorei o tema escolhido, e vc falou uma coisa que me chamou a atenção. A escrita da carta, O envelope. Eu adorava admirar as letras e imaginava o cuidado com o que foi feita. Carta com certeza tem cheiro de saudades. Beijos!!

    1. Sim, também tenho em mente essa saudade das cartas de papel, era qualquer coisa de diferente, não sei.
      Beijos.

  3. Nelson says:

    Saudades de comunicar, não as simples comunicações do “Olá” “Adeus”, mas daquelas que trazem conhecimento profundo e debate. Engraçado que ainda as mantenho contigo conforme referiste através da facilidade de um email.
    Saudades da minha juventude, em que pensava que conseguia mudar o mundo.
    Saudade de quem nos deixou.

    Um abraço Irina, falamos e continuaremos a falar pelas nossas trocas complementares.

    1. Sim, em caso de falta de papel, temos a tela de computador.
      Sigamos para 2021 com mais conversas Nelson.
      Um abraço.

  4. dulcedelgado says:

    Neste momento….. a grande saudade que tenho…é de dar abraços naturais, apertados e sem máscaras a algumas pessoas!
    Outras saudades existem…e ainda bem que existem, pois significa que o que ficou para trás foi bom e deixou algo dentro de mim!
    Gostei do texto!
    Bj e uma boa semana!

    1. Verdade Dulce.
      O abraço neste momento, mais que nunca, é algo que já nos trás saudades. E sim, saudade deixa sempre marcas.
      Obrigada, um beijo e boa semana para si também.

  5. Sinto saudades da infância: de assistir aos desenhos comendo biscoito no sofá, de brincar no play do prédio, de alguns amigos. Outro dia, até revi alguns desses desenhos e comi dos mesmos biscoitos, mas não eles não têm mais o mesmo gosto.

    1. Olá Pedro, e bom receber o seu comentário aqui.
      Sim, a saudade da infância, tempos menos complicados da nossa vida, esses tempos em que brincávamos na rua com e aqueles sabores que nunca mais se encontram… ou sentíamos os sabores de forma diferente ou muito se alterou com os anos.
      Ainda me lembro do percurso que fazia a pé para a escola, parecia não ter fim, hoje o mesmo percurso faço num instante – o tempo parece ter ficado muito relativo e alterado.
      Um abraço.

      1. Tenho essa mesma impressão do caminho pra escola. Achava interminável um percurso que, hoje, faria em menos de dez minutos.

  6. Sinto saudade dos abraços naturais tambem, e da democracia…

    1. Imagino que sim Rebecca, o que nos tem chegado nas noticias não tem sido um panorama muito bom não. Vamos ter esperança, ao que parece, as coisas já se começam a organizar.
      Desejo profundamente que as coisas se resolvam no melhor caminho.
      E um abraço, mesmo que virtual, é muito sentido.

      1. Obrigada pelo abraço. R

  7. Lara Dantas says:

    Que privilégio nosso a palavra que trouxe!
    Ontem me senti feliz pelo sorvo do perfume de uma casa vizinha. Pensei: alguém vai sair! Pois é disso que sinto falta, ir. Bem amplo para abrigar tudo.
    Um abraço cheio de esperança✨

    1. Sair, sem duvida…
      Todos nós carecemos um pouco disso. Portugal vai voltar a confinamento Lara, tudo a fechar novamente. Vamos ver quando é que este tormento vai acabar…
      Um abraço muito forte e carinhoso.

  8. Um tema profundo….Saudade, sim muitas , todos os dias….faz-me tanta falta a companhia, o sentido de humor, o sorriso, o meu irmão, sempre.
    Faz-me falta os abraços e os convívios familiares que esta pandemia nos tem roubado!
    Saudade é uma palavra que entra no coração!
    Um beijinho Irina e uma semana inspirada!

    1. Saudades de quem já não temos por perto mas não podemos esquecer que nos aquecem muito o coração, estiveram presentes na nossa vida, tivemos o prazer de a partilhar com eles e, sempre nos acompanharão no futuro, nos nossos passos. O nosso coração abraça-os constantemente.
      Esta pandemia tem trazido sentimentos muito complicados, tem agitado o nosso interior e exterior, sem duvida. Faz falta o calor humano.
      Saudade compõe-nos, saudade pertence, saudade dá esperança.
      Um beijinho bem forte Fernanda e uma excelente semana também para si.

  9. Bruno Morais says:

    Saudade é uma palavra molhada, né? Pra mim agora, vejo que devo colocar a minha no varal.

    Saudade são ondas, cheias de sal e vida. Que logo evapora e vai aos céus, ela saudade. Toda cíclica, e natural em nossas vidas…

    Uma excelente semana Irina!

    1. Concordo com o que referiu. Ela é mesmo cíclica, dá e vai passando, volta a dar e a passar. Dá tanto, cada vez que pensamos nela. Mas algumas acompanham-nos sempre, não que vivamos agarrados a elas mas estão guardadas num espacinho especial dentro do nosso ser.
      Uma semana bem boa para si também Bruno.

  10. Bia Perez says:

    Saudades de tantas coisas. Posso dizer que a saudade mora em mim. Do tempo passado de tantas coisas da minha infância: daquela inocência, da liberdade de brincar na rua, sempre com tantos amigos, de chupar fruta no pé, das comidinhas simples, do aconchego dos braços de minha mãe… Na adolescência das descobertas, do grupo dos amigos, dançar ao som de músicas tão lindas, dos namoricos. Irina atualmente ando bem nostálgica… estou escrevendo meu livro de memórias. Este tema me encanta. Seu texto me trouxe doces memórias novamente eu amei. Obrigada. Abraços

    1. Bem bom Bia, ela dá-nos alento e aconchega. Força nesse livro Bia, acho que todas as linhas escritas e palavras transbordadas são ensinamentos e formas de ver a vida que nos trás muita aprendizagem. E é bom recordar, sentir, viver as memórias outra vez. Tenho esse sentimento vezes sem conta. Não que me prenda ao passado, mas recorda-lo e retirar as melhores partes e também as piores que nos trouxeram ensinamentos é bom demais. É só nosso e se for partilhado é sentido. Um abraço bem forte.

  11. Saudade, de quem está presente, mas não está.
    Saudade do colo de mamãe, quando eu era criança e ela cuidava de mim. Ela ainda cuida, mas está longe e nada voltará a ser o que era amtes.

    1. Saudade é uma palavra cheia de emoção.
      Um beijinho grande Silvana e um abraço muito quentinho.

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