Breve recordação

“Braga, 20 de Janeiro de 2003, 16.30h,

Local café Kamakura,

Fazia frio lá fora, como era habitual no Inverno. A luminosidade era nula, quase que era noite e as gotas de água da chuva batiam contra as grandes janelas e ritmavam o ambiente lá fora, tons mais graves ouviam-se aqui e acolá.  

Sempre foi o nosso local de eleição, este café, as suas amplas janelas faziam com que o espaço não se encontrasse fechado, percorriam todo o seu alçado norte e este. As mesas compridas e largas, feitas em madeira eram espaçosas, local ideal para estudar, criar e surgir várias ideias e pensamentos.

O ritmo de blues que o Sr. Pacheco colocava na aparelhagem, enchia o ambiente de improvisações a um ritmo calmo e suave.

Era lá que nos encontrávamos todos, eu era a primeira a chegar. Aproveitava para estudar a matéria que tinha dado nesse dia. Sempre houve assuntos que gostei mais de me debruçar e aprofundar que outros, na altura, história e arte, algo que viria a ditar o meu futuro, algo que eu ainda não sabia. 

Era nessa altura que o Sr. Pacheco se sentava ao meu lado, abria discretamente o jornal e, enquanto eu estudava, ele lia as notícias. Achava curiosos como ele gostava sempre de saber a minha opinião referente aos assuntos que lia e, apesar de me interromper, eu sempre apreciei as ideias trocadas das nossas conversas. Não sei porquê, ele sempre sentiu uma certa admiração por mim. Eu sempre ouvi atentamente o que ele me dizia.

Sr. Pacheco tinha sido jornalista, escreveu para o Correio do Minho, tinha estado em África em tempos passados e não era muito chegado à sua família. Eu, pouco sabia sobre Sr. Pacheco, pessoa muito reservada mas que contava algumas histórias de suas vivências e situações passadas que achava muito interessantes. Foi ele que me incentivou a seguir em frente nos estudos, num período em que pensei em desistir de tudo. A única pessoa que via alguma potencialidade em mim. Graças a ele, segui os meus estudos e valorizei-me um pouco mais, consegui seguir para a faculdade.

Aos poucos, os outros iam chegando. E à medida que começavam a chegar, Sr. Pacheco retirava-se e ia para a sua mesa habitual, a que fazia esquina no estabelecimento.

Um dos primeiros a chegar, por norma, o Pedro. Estudante na Universidade do Minho num curso ligado a marketing e comunicação mas o seu sonho sempre foi seguir design e artes. Partilhavamos, nesse aspecto, os mesmos gostos. Enquanto falávamos era normal nos encontrarmos a desenhar em simultâneo. Admirava profundamente os seus desenhos, pois uma pessoa sem qualquer formação na área tinha perfeita noção das proporções e um espírito criativo sem igual. As conversas com Pedro giravam em torno de materiais de pintura, desenho, onde comprar os melhores materiais, quais as lojas que vendiam, os traços no desenho etc…

Quem se seguia no nosso encontro era João, estudante de línguas, viria a seguir a vertente português-inglês, ele trazia-nos o seu fascínio pela escrita e pelas traduções. Partilhava algumas ideias de livros que andava a ler e, todos debatíamos esses assuntos que ele puxava. Mesmo não lendo os livros, ele gostava de sondar a nossa opinião sobre os assuntos que andava a ler. E, por norma, era o assunto que dominava a mesa mas, nem eu nem o Pedro largavamos os nossos lápis, e há medida que avançávamos nos assuntos, surgiam as primeiras poesias ilustradas. 

Mario, costumava vir ao nosso encontro mas ficava pouco tempo, as suas tardes eram reservadas à sua banda da qual ele era guitarrista. Antes de ir ao encontro com seu grupo, tomava um café conosco. 

O outro Pedro, a qual chamávamos “Hetas”, devido à sua adoração pelo grupo Metálica era sempre o que se atrasava. Era o mais calado de todos mas trazia sempre uma componente humorística às conversas, servindo para quebrar o ambiente.  Falava-nos dos filmes que andava a ver e aconselhava-nos alguns. Sempre fomos um grupo muito seletivo no que víamos.

E assim passavam os serões. Onde os temas dominantes eram sempre as leituras, artes, cinema a música e num futuro, o teatro. Algo que passei a frequentar pouco depois de ideias trocadas neste espaço.”

Imagem Jessica Knowlden no Unsplash

24 Comments Add yours

  1. Uma prosa tão poética! Graças a si, imagino-me sentada à mesa desse café a ouvir os relatos dos seus amigos.

    1. Bom dia Filipa,
      Sabe, também eu…
      Hoje soube bem recordar.
      Um dia feliz, e agradecida por passar por cá.

  2. Catarina M. says:

    Gostaria de estar presente nas vossas conversas.

    1. Já pertencem a tempos longínquos…

  3. Consegui sentar ao seu lado e ainda espreitar o desenho.
    Que texto delicioso de se ler.

    1. 😜 E estava bom? Aprendi muito na altura. Ah, estou sempre a aprender.
      Fico agradecida por cá vires.
      Um abraço.

  4. dulcedelgado says:

    Sem duvida um texto muito visual, gráfico, vivido….e cheio de boas memórias!

    1. Muito boas recordações, sem dúvida. Períodos que me fizeram crescer, pessoas que me fizeram crescer. Foi sentido este texto.
      Um beijinho Dulce. E obrigada.

  5. This is so very lovely. What a fun exchange!!! Thank You, Isabelle!!!

    1. 🤣🤣 I’m not going to say again you made me laught so much. Yes my name begins with an I. 🤣🤣 😘😘

      1. OH. MY. GOD!!! 🤭🤭🤭 I AM SO SORRY!!! 🤣🤣🤣 I am out of my mind. Lord! I was blogging very early in the morning, I think…and that’s perhaps not the best idea!!! Lord! Call me everything but Katy from now on and we’ll be even. The funny thing is that I ADORE You and TOTALLY know You’re IRINA!!! You are on the list of people who, if I ever come into money or win the lottery, I would like to buy some art from someday!!! THANK YOU for Your AMAZING sense of humour! PLEASE forgive me!!! Sending huge hugs and bouquest of flowers with a tag that says, “Love You, IRINA!!!” 💖😊🌻💝💐🤗💕

      2. It’s ok Katy 😉 No worries.
        Hug.

  6. Fiquei pensando em toda cena e idealizando a aparência dos personagens.

    1. Poderia fazer uma breve descrição, mas receio tornar-me demasiado maçadora com a descrição, ainda assim, quer?
      Beijinho Silvana.

      1. Não é necessária. Eu quis dizer que a forma como escreves faz-nos viajar, imaginando o ambientes, como são as pessoas.

      2. Obrigada Silvana, fico contente que consiga transmitir isso.
        Um abraço com carinho.

  7. aNadventures says:

    Qué bello lugar, qué bella gente! Me dieron ganas de tomarme un café con ustedes y de conversar. Acerca de libros, cine, arte y la vida en general. 🙂

    1. Ana, seria com certeza um prazer. Teríamos sim, muitos tópicos a falar. Um abraço forte espero que esteja tudo bem contigo.

      1. aNadventures says:

        Irina, sí, algún día nos sentaremos en esa mesa. Lo estoy visualizando. 😉

  8. Hoje, tal cena parece até um sonho distante: um ambiente calmo, com boa companhia e muitas ideias.

    1. Sim, ambiente digno de sonho. Mas que transformando em palavras nos fazer seguir, aos poucos, em frente.
      Saudade aliada a uma ponderação de tempos que foram, e já não são mais.
      Um abraço forte Pedro, muito obrigado por suas palavras.

  9. Edsilva says:

    Tive a sensação de como se eu estivesse vendo uma fotografia antiga e conseguisse ver toda essa historia contada. bela passagem!

    1. Oh Ed, agradeço tanto… Sabe que eu não sou muito boa a fazer narrativas, vindo de uma pessoa que admiro a escrita, fez-me sentir bem.
      Um abraço bem apertado.

      1. Edsilva says:

        Gentileza sua Irina, srsrsr Grato! Quero mais narrativas suas, voce sabe começa com as peças separadas e dar vida a elas.

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